ARMADILLIS INATURALIS

terça-feira, 5 de julho de 2011

APRESENTAÇÃO E INTRODUÇÃO



1 - Apresentação:


Tento me lembrar de quando foi que escutei o som de um carro de corrida pela primeira vez. Na verdade, era um kart, em meados da década de 60, numa daquelas corridas organizadas pelas ruas de Belo Horizonte. Meu pai saía para passear comigo e meu irmão nos domingos de manhã e sempre íamos ver aquela barulheira infernal que esses pequenos e rápidos veículos faziam. As pistas, sempre improvisadas em praças e avenidas da capital, eram demarcadas com pneus velhos e a segurança era muito precária, seja para público ou pilotos (Figura 1) (1*). Naquela época corriam pilotos como Toninho da Matta, Marcelo Campos e vários outros que não ficaram gravados na memória. Sempre torcia para que nesses passeios de domingo encontrássemos uma corrida dessas pelo trajeto.

(1*) Auto Esporte, n.34, 1967. Rio de Janeiro: Efecê Editora, capa.


Figura 1: o meu interesse pelo automobilismo veio a partir dos karts nas ruas de Belo Horizonte.

Desde minha época pré-escolar e já cursando o grupo escolar, sempre demonstrei muita afinidade com automóveis, aviões e naves espaciais, criando e montando modelos em papel recortado ou materiais diversos que achava pelos cantos da casa ou nas oficinas do bairro onde morava. Lembro-me de quando fizemos um teste vocacional na escola e nos pediram para desenhar alguma coisa em que a gente estava pensando: desenhei um disco voador com vários seres engraçados, muito coloridos e dentro de um facho de luz (Figura 2). Depois que todos os testes foram reunidos, o resultado foi que eu teria muita facilidade com as ciências e com a criatividade.


Figura 2: parte do desenho feito no pré-primário.

No período das férias escolares eu ia para o interior do estado e me juntava aos primos. Fazíamos muita farra de menino e outras coisas que fariam alguma diferença nos anos posteriores. Comprávamos cadernos sem pauta e ficávamos horas desenhando aviões, navios, carros e paisagens. Meu pai tinha uma coleção de revistas LIFE que era uma fonte inesgotável de referências para desenhar certo, o mais fielmente possível à imagem que estávamos vendo. Havia um dos meus primos, já mais velho, que fazia umas miniaturas de carros, aviões e máquinas fotográficas, cavando a madeira dos antigos caixotes de maçã com o canivete. Aquilo me despertava muita curiosidade e em pouco tempo já estávamos, cada um com seu canivete comprado na venda da esquina, esculpindo fuselagens de aviões a jato, carrocerias de automóveis esportivos e, claro, pequenas câmeras fotográficas. Chegamos ao ponto de utilizar a pontinha de um bulbo de lâmpada de lanterna como lente dessas pequenas preciosidades.
Mas minha paixão pelos carros de corrida foi ficando mais forte e o sonho de ser piloto só esbarrava na opinião do meu pai (que valia muito naquela época) e na falta dos recursos financeiros para me iniciar nesse esporte (valia também a opinião dele nesse ponto: paitrocínio, eu nunca teria). Era um esporte caro, de alto risco, e ele queria ter um filho engenheiro, médico, advogado, físico nuclear ou até mesmo artista plástico. Assim, minha primeira entrada na UFMG foi para a Física. Dois anos mais tarde tentei Belas Artes e larguei a Física. Vinte e quatro anos depois de também abandonar as Belas Artes, tentei novamente Artes Visuais e cá estou escrevendo este texto.
No final da década de 60 começaram a acontecer corridas de automóveis no entorno do Mineirão (Figura 3) e, desde então, passei a assistir verdadeiros carros de corrida nas pistas, bastante modificados e preparados. Durante quatro anos pudemos ver alguns pilotos famosos correndo no que era chamado Autódromo Municipal Marcelo Campos (homenagem ao piloto mineiro morto em um acidente nos treinos para uma corrida, em janeiro de 1970).


Figura 3: A prova 100 Milhas da Independência em 1969. Ao fundo o prédio da Reitoria, no campus da UFMG.

Em 1971 assisti ao filme que iria confirmar para sempre essa paixão pelo automobilismo de competição. Estive em três sessões seguidas de Le Mans (2*), financiado e estrelado por Steve McQueen. Hoje, tenho o DVD com o filme e o assisto com o mesmo entusiasmo que há 39 anos atrás. As cenas da largada são algo indescritível para quem é apaixonado pelo assunto como eu (Figura 4).
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(2*) "As 24 Horas de Le Mans”. (BR 108958). Paramount Home Intertainment (Brazil) Ltda. Manaus, 2003. Plástico rígido, dolby digital, estéreo.



Figura 4: A largada das 24 Horas de Le Mans em 1970, cenário para o filme de McQueen.

Foi entre as idas e vindas para o Mineirão, que descobri uma pintura de Frederico Bracher Junior, um mural de cerâmica em uma das paredes da loja Pneus OK, na Av. Antônio Carlos, hoje demolido para as obras de ampliação das vias de trânsito (Figura 5). Ainda existia uma outra pintura sua, numa filial da mesma empresa, na Rua Rio Grande do Norte no bairro Funcionários e, com o fechamento da loja, provavelmente será vítima da especulação imobiliária. Esses dois trabalhos sempre me chamaram bastante a atenção por reproduzirem cenas clássicas das competições automobilísticas em um formato enorme e grandioso.



Figura 5: Foto feita durante a demolição do mural de Frederico Bracher Junior, na loja Pneus OK, na Av. Antônio Carlos em Belo Horizonte, hoje destruído.


Com toda essa história e juntando todas as economias que consegui, comprei um velho kart em 1976. Gastava todo o dinheiro que tinha (e o que não tinha) para sustentar as barulhentas voltas pelo bairro nas manhãs de domingo, até que, numa esquina, um amigo entrou com o meu veículo debaixo do carro de um deputado que morava próximo à minha casa. Felizmente foram só uns óculos e todo o motor do kart quebrados. Acabaram-se as corridas de carro para mim como piloto.
Em 1974 meu pai comprou um sistema de som quadrifônico e minha discoteca começou a crescer, com alguns LPs dos Beatles, Creedence Clearwater Revival, Alice Cooper, Led Zeppelin e Pink Floyd. Cresci ouvindo música clássica e Beatles (não tinha nada de MPB e detestava Bossa Nova), brincando de astronauta e construindo engenhocas mirabolantes. Não me identificava com as músicas comportadas da MPB (o boom do rock brasileiro só foi em meados da década de 80).
Aquela foi uma época em que os lançamentos musicais estrangeiros chegavam ao Brasil com seis meses de atraso. Íamos todo dia à Pop Rock (uma célebre loja de discos em Belo Horizonte, nos anos 70) perguntar se já havia chegado o disco novo de tal grupo. Lembro-me bem de quando comprei meu primeiro exemplar do Dark Side of the Moon (já o tinha gravado em fita K7, que escutava com fones de ouvido, em um volume que assustava quem estava de fora). Esse LP que eu acabava de comprar era gravado no sistema quadrifônico, o que me empolgava bastante. Até que um audiófilo, amigo meu, perguntou: “De que adianta quatro caixas se você só tem dois ouvidos?”. Ele tinha um exemplar em vinil (um direct to disk) importado, com pôsteres e uma grande foto das pirâmides de Gizé (Figura 6). Achava aquilo tudo fantástico e associava aquela imagem à minha iniciação no conhecimento da arte egípcia, nas aulas de Educação Artística.
Escutávamos aqueles dois discos no equipamento da minha casa e começamos a perceber algumas diferenças na mixagem e na reprodução sonora. Isso me levou a comprar, mais tarde, um outro LP estereofônico convencional, que já veio com uma outra capa. Fui percebendo também as tantas modificações que foram feitas nas capas do disco (Figura 7) ao longo de suas reedições.


Figura 6 : As pirâmides de Gizé, em foto que fazia parte da primeira edição inglesa do “Dark Side”: uma imagem que acompanhou meus primeiros estudos da arte egípcia.


Figura 7: A capa inicial (no alto à esquerda) foi várias vezes relançada com algumas modificações. Nota-se que o espectro da luz branca apresentava apenas seis cores. Na versão comemorativa dos 20 anos do álbum, em 1993, além de já aparecerem as sete cores no espectro, o prisma era uma foto real e as difrações foram compostas digitalmente.

Meu primeiro contato com o áudio desse disco foi quando vi na TV uma propaganda com um Dodge Dart subindo a estreita estrada da Serra da Piedade (Figura 8). A música era “The Great Gig in the Sky “ com a bela voz de Clare Torry sobre a melodia criada por Richard Wright. Aqueles poucos segundos ficaram muito marcados em mim, pois conseguiram reunir um carro, uma música e uma montanha, em especial, a maior montanha que eu já tinha visto até aquele momento. Acho que isso criou em mim relações fortes com a música desse disco. Havia muitos detalhes ocultos entre as faixas, vozes, passos, sons diferentes do que eu costumava ouvir nos discos de rock comuns que já conhecia. Foi a partir desse disco que iniciei minha coleção de discos do Pink Floyd e sempre fui atento aos avanços e descobertas que suas músicas me proporcionavam. Tudo se tratava de uma questão muito técnica, muito complexa e bem trabalhada, que não se encontrava com muita facilidade naqueles tempos (vim a conhecer alguma coisa no mesmo sentido, mas com um estilo totalmente diferente, na música do Jethro Tull; sem tanto apuro tecnológico, mas com um detalhamento de execução altamente elevado e profundas influências da música celta, além de uma flauta inigualável no contexto do rock).



Figura 8: “PIEDADE”, a Serra que eu cruzava quando ia a Caeté ou Itabira (aquarela em papel Arches Satiné – 38 x 28 cm – 2009).

Minha pesquisa sobre o disco do Prisma foi tomando rumos que me levaram a associar os temas propostos em suas letras aos trabalhos de pintura que estava desenvolvendo na Escola. Havia uma relação entre as armadilhas e as críticas que Waters fazia à sociedade capitalista da época e que ainda se encaixam perfeitamente nos dias de hoje. Além disso, o disco é sinônimo de sucesso. Em 30 anos de existência, cerca de 30 milhões de cópias foram vendidas; permaneceu 724 semanas na lista dos álbuns mais vendidos do mundo. Na Inglaterra, uma entre cinco residências possuía o disco. Numa época em que o termo globalização ainda era desconhecido, a revista Q publicou:

(...) com tantas cópias vendidas, era ‘virtualmente impossível que se passe um minuto sem que Dark Side toque em algum lugar do planeta. (3*)

Não passo uma semana sem escutar esse disco, sem consultar alguma coisa no livro de John Harris sobre o assunto, ou assistir ao DVD que nos mostra o making of da obra.

Ele pode ser o disco conceito definitivo, porque o conceito, as canções, os espaços na música estão lá, mas ele não tira nada da imaginação. (4*)

Apesar de o disco trazer uma mensagem sobre a empatia do ser humano diante de situações adversas, nem os próprios músicos, nem eu, encaramos essas adversidades com a devida coerência. No que me diz respeito, existe sim, uma dose relativamente grande de intolerância em relação à sociedade na qual vivo. Fica aqui a questão colocada por Waters e que eu também coloco: será o ser humano realmente capaz de ser humano?



2 - Introdução:


Nos últimos quatro anos investi uma boa parte do meu tempo em trabalhos ligados à Escola de Belas Artes, ao Curso de Artes Visuais que agora estou finalizando. Nesse período, foram várias as dúvidas e várias as vezes em que me vi diante de considerações nada fáceis (muitas delas colocadas sem um mínimo de sensibilidade ou com a mesma que um açougueiro retalha a carne gelada de uma rês abatida há quatro dias). Tais considerações poderiam levar um aluno menos vivido à desistência do curso: “Você está no lugar errado!” não é a melhor frase que se pode ouvir de uma professora, quando você já está cursando o terceiro período da faculdade.
Passei a fazer uma comparação entre o que vivia na Escola e fora dela (um mundo que a Academia parece ignorar), quando alguns parâmetros relativos à sociedade, na qual o consumo cada vez maior aponta para a extinção de qualquer forma de relação humana verdadeiramente humana (incluindo-se aí o conhecimento, como um objeto de consumo ou produto acadêmico) foram se tornando muito fortes para mim. Considero aqui a semelhança dos processos acadêmicos com a linha de montagem em série de uma indústria: tudo segue uma orientação que deixa ao operário apenas a opção de fazer como lhe é imposto. Como na produção do conhecimento, em que as regras impostas pelo sistema o tornam pouco acessível a grande parte dos possíveis consumidores.
Por um tempo, desenvolvi um trabalho mais voltado à representação de automóveis de competição e os resultados foram bastante satisfatórios, tanto em si mesmos, enquanto uma experiência de mercado, como produtos que encontrariam seu público sem muito esforço, uma vez que eu já estava inserido dentro de um contexto potencialmente consumidor desse tipo de arte (ou “baixa arte” como me disse aquela mesma professora). Nesse ponto me lembro de algumas palavras de Nietzsche em “Humano, Demasiado Humano II”, quando ele escreve: “(...) Há duas espécies de arte e de artistas” (5*).
Esse tema (os automóveis de competição) está ligado à minha atual atividade profissional: fabricar e montar miniaturas dessas incríveis máquinas. Por isso coloquei anteriormente a questão de um mercado possivelmente interessado, ou favorável ao tipo de imagens com que trabalho. Acho interessante colocar que foram várias as ocasiões em que esse tema foi motivo para o distanciamento de professores em relação à minha produção em desenvolvimento. Isso me parecia um tanto preconceituoso em relação a um tipo de imagem à qual não conheciam o universo ou mesmo imagens que não pertenciam ao universo da grande arte. O fato é que assim, desenvolvi alguns trabalhos em aquarela durante os Ateliês II e III, também aproveitando o acompanhamento técnico do Prof. Mário Zavagli. Pude trabalhar com diversos papéis, tintas e soluções que me deixaram satisfeito após a sua finalização.
Um outro fato curioso e, até certo ponto pertinente ao que pretende essa crítica à sociedade, é exatamente a incoerência em que mergulhamos sem perceber e até que ponto essa incoerência, essa hipocrisia coletiva, interfere nas nossas atitudes. Vejo vários exemplos: como ativistas que brigam pela não instalação de mais uma antena de celulares nas imediações de suas casas, mas não deixam de utilizar seus próprios celulares por nada; ou ambientalistas que utilizam o automóvel ou a motocicleta como opção de lazer cortando montanhas; ou protetores ambientais que defendem o extermínio dos gatos que vivem aqui na UFMG; ou ainda, um fanático por automóveis de corrida que condena a utilização do automóvel em centros urbanos e até mesmo a sua produção em larga escala, como nos dias de hoje. Essa última me perturba em alguns casos; mas enxergo que, na realidade, somos todos muito fracos e só daremos a mão à palmatória quando sucumbirmos ao crescente número de automóveis nas ruas.
Consegui também definir que o que me atrai nos automóveis é algo que não existe mais neles mesmos. Pode-se afirmar que os carros atuais não têm personalidade. Não existe mais uma forma própria, um barulho próprio, um jeito próprio em cada uma dessas máquinas produzidas hoje. Volto às décadas de 50, 60 e 70, quando ouvíamos de longe que um determinado veículo se aproximava. Mesmo à distância também podíamos definir sua forma, sua marca ou seu estilo. Essa personalidade do automóvel, tal como defino, deixou de existir também nas pistas de corrida. Hoje as diferenças estão pasteurizadas, com formas e avanços determinados pelos computadores. No passado, você observava dois carros com concepções mecânicas totalmente diferentes, formas e dimensões distintas, e com um desempenho igualado. Existia mais criatividade na busca por soluções, mais interação entre o construtor, o carro e o piloto. Havia um ambiente mais humano, mesmo num esporte que às vezes causava mortes e tragédias. Esse é o automóvel de corrida que estudo, trabalho e reproduzo (Figura 9).

(3*) HARRIS, John. The Dark Side of the Moon (Os bastidores da Obra prima do Pink Floyd). Rio de Janeiro, Zahar Ed., 2006, p. 8.
(4*) PINK FLOYD – THE DARK SIDE OF THE MOON. (BW 1000). ST2 Music Ltda. Manaus, 2003. Plástico rígido, dolby digital, estéreo.
(5*) NIETZSCHE, Friedrich. Humano, Demasiado Humano II, São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 149.



Figura 9: Colesano, Sicília – Targa Florio 1973. Um outro automobilismo; muito mais humano.

Mas o produto que eu gostaria de apresentar, de fato, nesse primeiro momento, é o resultado do meu trabalho de pintura, que está associado diretamente à sociedade consumista e à Academia, como parte de um sistema cada vez mais interessado em formar conhecimento teórico ao invés de investir no desenvolvimento de uma mente prática. Isso promove uma grande busca pela especialização, distanciando cada vez mais o sistema dos significados das palavras Universo, Universidade, Universalidade. Vejo pelo número cada vez maior de doutores e pós-doutores sem o mínimo conhecimento, vivência prática daquela especialização supostamente atingida. E assim o que importa mesmo é o título obtido. Nesse sentido é interessante a crônica de Mário Prata, “Uma Tese é uma Tese”, na qual ele coloca:

Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.
Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática. (6*)

No meu primeiro dia na Universidade, me lembro bem da vice-reitora dizendo que aquele era um local para produção do conhecimento”. Pensei: que verdade mais medíocre! Quando falamos em tomar conhecimento de algo, nos vem a idéia de uma coisa bastante superficial, de passagem, de escutar ao longe. Acho mesmo que o saber, o saber fazer, está muito além do conhecimento, do título acadêmico que o especialista ostenta, do rótulo que a sociedade coloca sobre a superfície de um produto de consumo, especificamente de um título conquistado.
Deixo bem claro que os pontos colocados acima são observações pessoais e que podem ser modificados a partir do momento que novas experiências me indiquem alguma mudança. O que continuo a ver é exatamente o privilégio da quantidade sobre a qualidade, de um maior número de produtos para um maior número de consumidores, de uma oferta cada vez maior para o consumo cada vez maior. Nesse ponto a qualidade cede espaço para a pouca eficiência da quantidade. É assim no âmbito da produção em larga escala; e penso que é assim no processo de produção do conhecimento acadêmico.
“Armadillis inaturalis”, na forma de nomenclatura científica das espécies, é o título que dou a uma determinada série de artefatos artificiais que aprisionam valores criados pela sociedade, e que, no meu entender, induzem o indivíduo ao consumo, à superficialidade e à dependência de conceitos teóricos. O dinheiro que paga, o rótulo que vende, o vício que paralisa, o imediatismo do tempo ou até a capacidade do ser humano em ser humano. Essas relações surgiram da formulação de uma proposta de transformação de cada um desses artefatos em armadilhas que, por todo o contexto teórico que as originou, devem ser descritas como espécies não raras (menos ainda em extinção) da sociedade moderna.
Os trabalhos que serão apresentados aqui foram desenvolvidos durante meu período de Habilitação em pintura na Escola de Belas Artes-UFMG (entre 2006 e 2010), como propostas de trabalhos para os Ateliês de Pintura I, II, III e IV. Essas imagens foram minhas primeiras tentativas com a atividade de pintar, as primeiras experiências com materiais que antes eu só havia tomado conhecimento, mas nunca havia experimentado. A pintura para mim aparece como uma grande e saborosa novidade, que me surpreende em alguns casos. É interessante perceber o quanto elas nos dizem, principalmente depois que as deixamos solitárias por algum tempo, vivas por si mesmas, nos enviando recados através do que quer que seja. Só então é possível perceber se realmente fizemos algo, transformamos algo.

(6*) O Estado de São Paulo, 7 de outubro de 1998.

Um comentário:

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